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Afecções articulares: Sinais clínicos, diagnóstico, tratamento, prevenção e relato de caso

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Atualmente os pets estão cada vez mais presentes na vida dos tutores e compartilham do seu dia a dia. Seja nos exercícios físicos ou mesmo apenas como pet de companhia. Por conta dessa maior convivência hoje eles passaram a compartilhar também alguns dos nossos problemas. Dentre eles os problemas articulares como artrites e artroses.

Inicialmente toda artrose é uma artrite. De modo simples, a artrite caracteriza-se por uma inflamação articular decorrente por diversos motivos (doenças autoimunes, fatores genéticos, quedas, má nutrição, infecções, entre outros) e a artrose por um processo inflamatório crônico que surge usualmente em pacientes idosos, em torno dos 5 anos de idade.

A artrose é uma doença articular crônica, amplamente conhecida por osteoartrite ou doença articular degenerativa (DAD), respondendo por cerca de 70% dos transtornos articulares em cães. Caracteriza-se por progressão lenta, podendo ser decorrente da artrite, de processos autoimunes, sobrecarga articular e outros fatores. Por fim, o que as tornam diferentes, é que a artrite é uma inflamação aguda, que tem ação rápida e a artrose trata-se de uma inflamação notavelmente crônica e lenta.
À medida que os animais vão ficando mais velhos, as dores começam a ficar aparentes. A artrite e artrose são afecções articulares que, quando não manejadas adequadamente, criam perda de qualidade de vida aos nossos pacientes.

Vamos elencar alguns fatores que predispõem o início dessa doença:

Idade: Em animais idosos é comum que os ossos e articulações comecem a se desgastar. Soma-se a isso a sarcopenia desenvolvida pelos pacientes, ela acaba fazendo com que os componentes articulares se exponham a maior estresse, levando a artrose.

Piso escorregadio: Pacientes que vivem em piso liso como porcelanato ou madeira, eles tendem a desenvolver mais lesões articulares pelos sucessivos micros traumas que causam nas articulações, bem como maior predisposição a lesões de entorses em seus variados graus pelo contínuo esforço a que ligamentos e tendões são submetidos.

Cirurgias articulares: Quando submetidos a cirurgia nas articulações, os cães e gatos podem desenvolver a artrose mais facilmente quando chegam à velhice pelo somatório dos fatores primários que levaram o paciente a cirurgia e de fatores secundários inerentes a técnica cirúrgica (pinos, parafusos, placas, fios) que podem ativar uma cascata inflamatória ou interagir de alguma maneira com uma já existente.

Sobrepeso: A obesidade dos cães faz com que as articulações suportem peso além do que deveriam. Fato este que pode levar ao comprometimento da harmonia da produção de líquido sinovial, nutrição e formação de sinoviócitos e condrócitos. Além do sobrepeso favorecer que o organismo se mantenha em um status mais propenso a inflamação

Fatores genéticos: Há raças que têm uma predisposição maior a essa enfermidade. Cães de grande porte respondem por displasia coxofemoral e de cotovelo, cães de pequeno porte pelas luxações de patelas e desvios angulares de membros, braquicefálicos pelas más formações congênitas de coluna (hemivértebras).

Sinais clínicos

  • Dificuldade de andar ou de encontrar posição para dormir;
  • Desconforto ou dificuldade para abaixar no momento de beber água ou comer;
  • Claudicação;
  • Dor aguda ou crônica;
  • Vermelhidão da pele ao redor da inflamação;
  • Pouca resistência ao exercício;
  • Aumento da temperatura;
  • Aumento do volume articular (inchaço);
  • Limitação da amplitude de movimentação;
  • Mudança no comportamento.

Diagnóstico

A fim de diagnosticar as enfermidades articulares em cães, o médico-veterinário pode se valer de diversas técnicas. Entretanto, independente da opção, é primordial que o método se relacione aos sinais e sintomas clínicos, bem como aos resultados da análise do líquido sinovial.

A anamnese completa torna-se um alvo importante do profissional. Logo requer manter-se atento a raça, sexo, idade, uma vez que algumas doenças articulares mostram-se mais rotineiramente em seletos nichos de população.

Também precisam ser investigados os hábitos, o habitat dos cães, se tiveram doenças e tratamentos anteriores. Bem como o peso, aumento de volumes, tremores, enfim analisar seu estado como um todo.

Na sequência é necessário realizar a inspeção visual e fazer testes locomotores específicos, como exames físicos nos quatro membros.

Diagnóstico por imagem

Realizado isso, chega a vez dos exames por meio de diagnósticos de imagem. Atualmente, devido a evolução tecnológica conseguimos encontrar equipamentos de alta qualidade de resolução da imagem que proporcionam um preciso diagnóstico.
A radiologia é um método não invasivo, barato e muito indicado para avaliar o sistema locomotor. No entanto, possui efeitos ionizantes e não é muito efetiva em tecidos moles.

Os médicos-veterinários também podem fazer uso de ressonância magnética ou tomografia, que são muito eficientes, mas possuem alto custo e a desvantagem de manter o animal sob anestesia geral.

A ultrassonografia, por sua vez, se mostra como uma ferramenta altamente eficiente e necessária para fornecer informações das estruturas articulares dos cães com alta resolução. Além disso, apresentam a vantagem de ser acessível, ter baixo custo, permitir avaliação da estrutura de tecidos moles, não ser ionizante ou invasiva.

Por isso, essa técnica de diagnóstico vem sendo largamente usada junto a outros métodos auxiliares para realizar uma avaliação completa das articulações. Porém, para apresentar bons resultados é imprescindível contar com a habilidade e a experiência do operador responsável.

Tratamento

  • Existem tratamentos para ambas as doenças articulares, e em alguns dos casos não há cura, porém podemos estabilizar o desenvolver da patologia nos valendo de algumas atitudes, como por exemplo:
  • Evitar ganho de peso;
  • Dietas balanceadas;
  • Fisioterapia, acupuntura e exercícios;
  • Anti-inflamatórios não esteroidais, analgésicos e opioides para alívio da dor;
  • Suplementos a base de colágeno UCII, condroitina e glucosamina;
  • Readequando o local onde o paciente vive ou passa maior parte do tempo, provendo superfícies antiderrapantes como piso moeda ou EVA;
  • Intervenção cirúrgica.

Prevenção

Não existe um modo específico e 100% eficaz de prevenir as doenças articulares nos pacientes, visto que ocorre em todos os animais o desgaste natural das articulações de forma geral e/ou com situações específicas de acidentes. Todavia, podemos ajudar a fortalecer a musculatura do animal e evitar situações propícias a lesões. Podemos nos valer:

Manter o paciente aquecido: Nos dias mais frios, apesar de não termos certeza do motivo, notamos que pacientes com problemas articulares ou mesmo implantes sentem mais incomodo;

Medicamentos de suporte: Principalmente no caso de pacientes idosos, aplicar medicamentos como ômegas, condroitina, glucosamina, vitaminas, antioxidantes, a fim de promover maior homeostase articular;

Evitar saltos e vigorosas atividades física: Atividades de alto impacto devem ser evitadas, sobretudo em superfícies irregulares ou derrapantes, sem o adequado acompanhamento do paciente. Notamos grandes índices de lesões em superfícies articulares, ligamentos e tendões nos pacientes que desempenham este tipo de atividades;

Monitorar o peso: Animais com sobrepeso e obesidade desencadeiam processos inflamatórios no organismo, além de sobrecarregar as articulações dos cotovelos, joelhos e quadril;
Ambiente caseiro seguro: Atenção ao piso. Se for escorregadio, usar tapetes ou pisos emborrachados, para melhorar o atrito das patas, pois a instabilidade ao se locomover pode piorar consideravelmente as articulações. Em escadas, restringir o acesso sempre que possível, e em móveis colocar rampas auxiliares para subir e descer de forma mais segura.

Necrose Asséptica de Cabeça de Fêmur (NACF) em cão tratado por meio da técnica de colocefalectomia unilateral

INTRODUÇÃO

A Necrose Asséptica da Cabeça do Fêmur (NACF), pode ser também chamada como doença de Legg-Perthes ou Legg-Calvé-Perthes, necrose avasculas, osteocondrite juvenil, coxa plana ou necrose isquêmica. É classificada como uma doença articular do desenvolvimento, sendo uma patologia incapacitante que provoca inúmeras limitações na locomoção do animal acometido. Classificada também como sendo autolimitante, caracteriza-se pela morte do tecido ósseo devido a privação de aporte sanguíneo, parcial ou total, podendo ser de originada por trauma, devido a luxações, fraturas e ampla desnudação do periósteo, ou não, sem trauma envolvido, em decorrência de uso prolongado de corticoterapia, compressão de veias, doenças metabólicas, entre outras (CORREIA et al., 1996; DOIGE; WEISBRODE, 1998; SOUZA; SILVA FILHO, 1999; AIELLO, 2001; CARPENTER, 2003; SCHULZ, 2008).

O processo deixa a cabeça femoral e o quadril deformados, com uma gama restrita de movimento e de riscos futuros para as modificações secundárias artríticas (LAREDO FILHO et al., 2001; SONI et al., 2004; MAMAN et al., 2007). A NACF tende a ocorrer anteriormente ao fechamento fisário da cabeça femoral (SCHULZ, 2008). A condição é geralmente de um lado só. Todavia, alguns casos podem acometer, de forma independente, ambas as cabeças femorais em 11 a 18 % dos casos (STURION; STURION, 2000; KEALY; McALLISTER, 2005; FARROW, 2006; SCHULZ, 2008).

A maior incidência de início dos sinais da patologia é em torno de 6 e 7 meses de idade, variando de 3 a 13 meses. Os animais acometidos costumam apresentar claudicação uni ou bilateral, de início gradual e piorando num período de 6 a 8 semanas; dor, pela fragmentação da epífise femoral e a osteoartrite; e, nos casos crônicos, pode haver atrofia muscular e impotência funcional da pata afetada, evoluindo para a não sustentação do peso pelo paciente. Alguns animais tendem a mostrar, ainda, irritabilidade, inapetência e o ato de mordiscar a pele na região do membro afetado (GAMBARDELLA, 1996; PIERMATTEI; FLO, 1999; SCHULZ, 2008). Em 1909, Waldenström descreveu primeiramente o fenômeno, mas atribuiu a causa à tuberculose. Em 1910, Arthur Legg nos Estados Unidos, Jacques Calvé na França e George Perthes na Alemanha, relataram, de maneira independente, essa patologia de etiologia ainda desconhecida em humanos (SONI et al., 2004). O relato pioneiro na literatura em medicina veterinária foi realizado por Tutti em 1935 (NUNAMAKER, 1985). Desde então, muitas pesquisas foram realizadas sobre a patologia, chegando à conclusão de que acomete principalmente cães jovens e de pequeno porte, vendo que fêmeas e machos são similarmente afetados (GAMBARDELLA, 1996; PIEK et al., 1996; OLMSTEAD, 1998; PIERMATTEI; FLO, 1999; BIASI et al., 2000; AIELLO, 2001; PEDERSEN et al., 2004; KEALY; McALLISTER, 2005).

Poodles, pinschers, yorkshires, terriers e west higland white terriers são raças que apresentam maior incidência (CARPENTER, 2003; ALLAN, 2007). Ocasionalmente cães de raças grandes demonstram a doença (OLMSTEAD, 1998). Já em gatos, aparentemente, não são afetados pela patologia (SCHULZ, 2008). Nos animais suspeitos não são encontradas alterações laboratoriais consistentes e os sinais clínicos vistos não demonstram alterações específicas e conclusivas (BIASI et al., 2000; VASSEUR, 2005; SCHULZ, 2008). Deste modo, o exame radiográfico é a técnica indicada e amplamente utilizada para diagnóstico (DEMKO; McLAUGHLIN, 2005; FROES, 2011). Nesse contexto, o presente trabalho objetiva relatar um caso de Necrose Asséptica de Cabeça de Fêmur (NACF) em um canino da raça spitz alemão tratado por meio da técnica de colocefalectomia unilateral.

Materiais e métodos

Uma cadela da raça spitz alemão foi atendida em uma clínica veterinária particular na cidade de Fortaleza (CE), com histórico de claudicação dos membros pélvicos, sem histórico de trauma, onde a tutora relatou que há três semanas a paciente estava “mancando” e já não corria e brincava mais como antes, aparentando estar triste, eventuais choros e com seu apetite diminuído.

Figura 1. Radiografia ventro dorsal

O animal tinha oito meses de idade e pesou 4,0 kg. O exame físico da paciente apresentou parâmetros vitais normais de temperatura corporal de 38,2ºC, frequência cardíaca de 110 bpm, frequência respiratória de 20 mov/min, mucosas rosadas, tempo de preenchimento capilar <2, hidratação normal e pulso arterial normal. No exame específico dos membros o animal apresentou dor à palpação do membro posterior esquerda na região do quadril. Foram realizados o teste de gaveta para verificar a integridade do ligamento cruzado cranial, avaliação da estabilidade patelar, a fim de verificar existência sinais de luxação patelar medial ou lateral, avaliada também a integridade de ligamentos colaterais do joelho, os quais não apresentaram alteração perceptível.

A paciente foi submetida a radiografia, onde foi utilizada projeção ventrodorsal da região pélvica. O exame radiográfico visualizou diminuição da opacidade óssea, com pequenas áreas de lise da cabeça e colo femorais, perda do contorno arredondado usual da cabeça do fêmur, discreto aumento do espaço articular entre acetábulo e cabeça do fêmur (FIGURA 1). Baseado no histórico, no exame radiográfico e físico feito, diagnosticou-se a afecção apresentada no membro pélvico esquerdo do animal como Necrose Asséptica da Cabeça do Fêmur (NACF).

Após análise do quadro clínico do animal, decidiu-se pela cirurgia como tratamento, sendo utilizada a técnica de colocefalectomia unilateral, cujo objetivo é excisar a cabeça e colo femoral para eliminar o contato ósseo e permitir a formação de uma pseudoartrose (SLATTER, 2009).

Após jejum de oito horas, o animal foi preparado para a cirurgia onde foi realizada vasta tricotomia na região lateral da articulação coxo femoral esquerda (FIGURA 2) e da região de coluna lombosacra (FIGURA 3). O animal foi cateterizado pela veia cefálica para receber fluidoterapia com ringer lactato ao longo do procedimento cirúrgico (FIGURA 4). O protocolo anestésico utilizado foi metadona como medicação pré-anestésica, indução com propofol e cetamina, e manutenção com isofluorano. Além do uso de anestesia peridural com lidocaína (FIGURA 5). O animal foi acomodado em decúbito lateral direito e, então, foi realizada limpeza e antissepsia prévia da área cirúrgica com álcool 70% e clorexidina 2% (FIGURA 6). Após a antissepsia e isolamento do membro pélvico com o campo estéril, foi iniciado o procedimento cirúrgico.

A técnica cirúrgica foi realizada de acordo com SLATTER, (2009), assim sendo, foi feita uma incisão crânio-lateral sobre a articulação coxofemoral (FIGURA 7), retraindo o músculo bíceps femoral e o músculo tensor da fáscia lata (FIGURA 8). A cápsula articular foi incisada (FIGURA 9) e o fêmur foi rotado externamente mantendo a patela direcionada no sentido lateral. Após identificação da linha de junção do colo com a metáfise do fêmur (FIGURA 10), foi realizada a ostectomia (FIGURA 11), através de uma serra óssea oscilatória.

Após a remoção da cabeça e colo femoral, a cápsula articular foi suturada sobre o acetábulo. A musculatura incisada foi suturada com fio Vycril 2.0 padrão Sultan, a aproximação do tecido subcutâneo foi feita com fio Vycril-3.0 em padrão simples contínuo e a sutura de pele com fio Nylon-4.0 em padrão simples. Após a cirurgia, a cabeça femoral foi enviada para exame histopatológico ósseo, onde foi visto que o osso compacto estava infiltrado por proliferação de tecido conjuntivo e neovascularização, fibrose. O tecido ósseo apresentava perca da morfologia e necrose de osteofitos. Na superfície articular foi observado diminuição da espessura de tecido cartilaginoso
Na medicação pós-operatória foi utilizado dipirona e tramadol para analgesia, ceftriaxona como antibiótico e carprofeno como anti-inflamatório. Para casa foi receitado anti-inflamatório não-esteroidal a base de carprofeno de uso oral, cefovectina, dipirona e tramadol, além de curativos da ferida cirúrgica com spray cicatrizante para uso tópico, composto pela associação entre tartarato de ketanserina e asiaticosídeo. Foi informado ao tutor a necessidade de cuidados pós-operatório como repouso e uso do colar elizabetano até a retirada dos pontos (FIGURA 12).

Decorridos dez dias do procedimento, o animal voltou a clínica para consulta retorno e retirada dos pontos. A ferida cirúrgica não apresentou inflamação, secreção ou rompimentos de pontos, sendo o processo cicatricial considerado satisfatório. O animal apresentava apoio leve do membro operado, e a proprietária relatou que ele voltou a ser ativo e a se alimentar normalmente.

DISCUSSÃO

Como foi sugerido por Olmstead (1998) e Biasi et al. (2000), o diagnóstico de NACF do presente animal foi baseado no histórico relatado pelo tutor durante a anamnese, no exame clínico-semiológico assim como, nos achados radiográficos. Legg, Calvé e Perthes descreveram a entidade clínica, porém somente Legg declarou a mais aceitável patogênese, no qual acreditou ser um defeito no suprimento de sangue da epífise femoral. Calvé acreditava que a condição deveria ser por uma Ricketsia, e Perthes relacionou a doença a uma artrite degenerativa, provavelmente de natureza infecciosa (NUNAMAKER, 1985). Atualmente, há o conceito de que a NACF é o resultado de uma combinação de fatores mecânicos e biológicos que levariam a circulação intraóssea da cabeça femoral a um quadro isquêmico (PENEDO et al., 1993).

Nesse contexto, a maioria dos autores defende que a NACF decorre de uma interrupção do suprimento sanguíneo na porção da epífise femoral relativa à cabeça do fêmur, resultando num colapso e faz com que a área afetada sofra necrose. Porém, a etiologia não é totalmente conhecida, mas diversas teorias foram propostas, incluindo a interferência hormonal, fatores hereditários, conformação anatômica, pressão intracapsular e infarto da cabeça do fêmur (BALDERSTON et al, 1996; GAMBARDELLA, 1996; KEALY; McALLISTER, 2005; SCHULZ, 2008).

O suprimento vascular da cabeça do fêmur em animais jovens com as fises femorais proximais abertas é derivado, exclusivamente, dos vasos epifisários, que correm por fora dos ossos, ao longo da superfície do colo femoral, atravessam a placa de crescimento e penetram o osso para nutrir a epífise femoral. A sinovite ou uma posição anormal prolongada do membro pode aumentar a pressão intra-articular, levando ao colapso das veias mais frágeis e à inibição do fluxo sanguíneo (SCHULZ, 2008).

Após a morte celular, o osso responde com um processo reparador. Contudo, o conteúdo ósseo é enfraquecido mecanicamente durante o período de revascularização e as forças de sustentação de peso fisiológicas normais podem causar o colapso e a fragmentação da epífise femoral, ocasionando uma doença articular degenerativa (WISNER; POLLARD, 2007; SCHULZ, 2008) que altera a forma anatômica e favorece a proliferação de osteófitos perivasculares (OLMSTEAD, 1998; PIERMATTEI; FLO, 1999; FROES, 2011).

O perfil da paciente desse relato se enquadra na descrição que refere que o aparecimento dos sintomas clínicos ocorre, na maioria dos animais, entre 5 e 8 meses de idade, podendo variar dos 3 aos 13 meses (PIERMATTEI e FLO 1999; CARPENTER, 2003). SCHULZ (2008).

O exame radiográfico é a técnica rotineiramente utilizada para estabelecer o diagnóstico, pois possibilita a visibilização e diferenciação de outras afecções devido às características específicas apresentadas pela mesma, assim como, auxilia no planejamento do tratamento e conduta com o paciente (SANTANA FILHO, et al., 2011; FROES, 2011).

Segundo Farrow (2006), quando a afecção envolve apenas uma articulação, é possível detectar alterações sutis ao comparar-se a articulação afetada com a normal. Na imagem radiográfica são visibilizadas frequentemente diminuição da opacidade óssea da cabeça e do colo femorais, perda do contorno arredondado característico e achatamento cranial, aumento do espaço articular do quadril. O acetábulo se torna raso e sua margem cranial apresenta-se achatada, pode ocorrer fragmentação da cabeça do fêmur com descontinuidade do osso subcondral, além de angulação mais aguda entre o colo femoral e a haste femoral e desenvolvimento de uma deformidade vara (OLMSTEAD, 1998; PIERMATTEI; FLO, 1999; KEALY; McALLISTER, 2005). Tais sinais podem ser identificados nas fases iniciais da doença, todavia podem apresentar-se diferentes nas fases mais crônicas. Assim como, podem não estar tão evidentes em animais recentemente acometidos pela afecção, recomendando-se repetir o exame num intervalo de dez dias (FROES, 2011).

De acordo com Piermattei; Flo (1999), frequentemente, o primeiro sinal notado é a irritabilidade; o animal pode morder a área do flanco e do osso coxal. A dor pode ser determinada na articulação coxofemoral, particularmente na abdução. Mais tarde, a crepitação pode estar presente com taxa de movimentação restrita e encurtamento do membro. Atrofia dos músculos glúteos e quadríceps tornam-se aparente. A ocorrência de claudicação é geralmente gradual, e seis a oito semanas são necessárias para progressão até a completa impotência funcional. A dor pode ser aguda quando existir fraturas da cabeça femoral em áreas líticas (GAMBARDELLA, 1996; BIASI et al., 2000; AIELLO, 2001; CARPENTER, 2003; PEDERSEN et al., 2004). Desde o início do tratamento de uma alteração ortopédica deve-se agir de forma a prevenir complicações imediatas e, principalmente, as tardias como pseudoartrose, coxa vara, consolidação viciosa ou fechamento fisário prematuro. Contudo, a NACF é a única, dentre as alterações ortopédicas, que, do momento que iniciou seu curso, não pode ser evitada mesmo quando é efetuado um atendimento rápido e adequado (ASTUR et al, 2010).

A artroplastia total da articulação coxofemoral é, atualmente, utilizada em cães com alterações na articulação coxofemoral, entre elas a NACF, com 92 a 98% de resultados satisfatórios (DEYOUNG et al., 1992). Porém, segundo Barbosa (2008), para a realidade brasileira, o uso desta técnica ainda é insipiente devido ao seu alto custo, sendo frequente ainda o uso da excisão completa da cabeça e colo femorais. A excisão da cabeça e colo femoral é considerada o tratamento de escolha em cães (DENNY; BUTTERWORTH, 2000.

Olmstead (1998) e Piermattei e Flo (1999) afirmam que resultados satisfatórios são obtidos com tal tratamento cirúrgico, além de que o tempo de recuperação é menor e a taxa de sucesso é mais alta do que a do tratamento conservador. Pedersen et al. (2004) relatam ainda que, em alguns casos, os animais respondem somente à administração de agentes condroprotetores. O tratamento conservador com anti-inflamatórios e exercícios limitados pela coleira ou sem a sustentação de peso, como natação, pode propiciar o alívio da dor em uma pequena porcentagem dos cães, mas a maioria destes requer intervenção cirúrgica para alívio da claudicação, sendo a excisão da cabeça e do colo do fêmur o tratamento de eleição (SCHULZ, 2008).

Segundo Foganholli; Filadelpho (2006), o uso da acupuntura e as suas técnicas de aplicação têm sido muito bem aceitas por médicos-veterinários e tutores como forma de terapia para diversas afecções, entre elas a NACF. Sendo que, dependendo do grau da lesão, se a cura total não puder ser estabelecida, alcança-se pelo menos a melhora na qualidade de vida do paciente. Segundo Matera et al. (2003), a irradiação periarticular, com o laser de baixa potência Arseneto de Gálio, promove um rápido retorno da função do membro em cães após a excisão artroplástica da cabeça do fêmur, otimizando a recuperação pós-operatória.

Em animais domésticos, devido à convivência pacífica existente com humanos, com rápido acesso ao tratamento e a facilidade de manejo, percebe-se uma boa recuperação dos mesmos (PROBST, 1996; EGGER, 1998; JOHNSON, 2008). Segundo Aiello (2001) e Carpenter (2003), a utilização de sessões de fisioterapia ajuda a estimular o uso do membro afetado. Corroborando com SCHULZ (2008), que descreve que o animal submetido à ostectomia da cabeça do fêmur deve ser estimulado a utilizar o membro imediatamente após a cirurgia, o que deve incluir exercícios de reabilitação física, assim como, quando o animal tolerar, flexão e extensão passivas da articulação do quadril duas vezes ao dia iniciando-se com pequenos movimentos e aumentando a amplitude gradativamente.

De acordo com Carpenter (2003), faz-se necessário monitorar os pacientes submetidos ao tratamento cirúrgico, visando avaliar a recuperação cirúrgica, a adaptação biológica e a evolução dos movimentos e comportamento do animal. O prognóstico quanto à recuperação após a cirurgia é favorável (VASSEUR, 1996; OLMSTEAD, 1998; BIASI et al., 2000; AIELLO, 2001; CARPENTER, 2003; PEDERSEN et al., 2004; BARBOSA, 2008; SCHULZ, 2008). Contudo, ocasionalmente podem ser obtidos resultados insatisfatórios, muitas vezes relacionados à ausência de sustentação de peso antes da cirurgia, a uma atrofia muscular pré-operatória grave ou a realização de uma técnica cirúrgica incorreta (FUJIKI, 1998; SCHULZ, 2008).

Conclusões

A necrose asséptica da cabeça do fêmur tem pequena incidência na rotina da clínica de pequenos animais, entretanto essa patologia leva a sintomatologia clínica comprometedora do bem-estar e qualidade de vida do paciente.

Conhecer a etiologia, sinais clínicos e, principalmente, as alterações encontradas nas radiografias mostram-se de suma importância, a fim alcançar um diagnóstico precoce da necrose asséptica da cabeça do fêmur, importante fator para obtermos excelentes resultados com o tratamento determinado.

 

Daniel Falcão
Médico-veterinário graduado pela Universidade estadual do Ceará (UECE) em 2007, pós-graduado em ortopedia veterinária pela Universidade Anhembi Morumbi (São Paulo/SP – 2011), pós- graduado em anestesiologia veterinária pelo Instituto Qualittas em 2018, pós-graduado em clínica médica e cirúrgica de felinos pelo Instituto Qualittas em 2018. Atualmente trabalha com atendimento clínico e cirúrgico na área de ortopedia em Fortaleza (CE).