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Nutrição do paciente cardiopata

O aumento da longevidade de cães e gatos tem sido acompanhada por alterações inerentes à senescência, como a ocorrência de cardiopatias. Como a maioria dessas desordens são de desenvolvimento crônico o manejo terapêutico e nutricional é fundamental para melhorar a qualidade e expectativa de vida do paciente cardiopata. Apesar de não haver um consenso sobre suplementações para cardiopatas sabe-se que o fornecimento de dietas balanceadas com proteínas de alto valor biológico, a suplementação de L-carnitina, ácidos graxos, vitamina B e antioxidantes e o ajuste de minerais como sódio, potássio e magnésio podem ser benéficos.

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Introdução
O início da aproximação entre seres humanos e cães e gatos foi pautada em “prestação de serviço”, com viés instrumental e praticamente sem vínculo afetivo. Atualmente, a situação dos mais de 55,1 milhões de cães e 24,7 milhões de gatos (ABINPET 2019) que ocupam os lares brasileiros é diferente dos seus ancestrais. Os tutores entendem que essa relação é bastante benéfica para ambos os lados e muitos até veem os pets como substitutos de “filhos humanos”.

Com essa nova visão sobre os cães e gatos, a expectativa de vida destes animais aumentou de forma expressiva, devido principalmente à maior conscientização dos tutores, ao controle mais eficaz de doenças e à melhor nutrição, além dos avanços da medicina veterinária (FAHEY 2008). O aumento da longevidade e o envelhecimento desses animais inevitavelmente trazem consigo alterações fisiológicas em diversos sistemas orgânicos (BURKHOLDER 1999), dentre eles, o sistema cardiovascular. As doenças cardíacas estão entre as patologias mais comuns que acometem cães e gatos, afetando cerca de 11% dos cães e até 20% de algumas populações de felinos (FASCETTI 2012).

Em cães, a maioria dos indivíduos de raças de pequeno e médio porte é mais predisposta a adquirir doença valvar crônica e endocardiose, ao passo que a cardiomiopatia dilatada e as doenças pericárdicas são as causas mais comuns de insuficiência cardíaca congestiva em cães de raças grandes (JERICÓ 2015). Já em relação aos felinos, a cardiomiopatia dilatada costumava ser a doença cardíaca de maior incidência, até que em 1987 PION et. al. relatou a associação entre essa patologia e a deficiência de taurina. Desde então, a taurina tornou-se essencial nas formulações para gatos, sendo adicionada aos alimentos comerciais. Nos dias de hoje, a doença cardíaca de maior incidência em gatos é a cardiomiopatia hipertrófica e linhagens puras da raça Maine Coon parecem ter uma hereditariedade ou tendência familiar importante a ela (CASE 2011).

Principais alterações no paciente cardiopata
A grande maioria das doenças cardíacas não podem ser curadas e os sinais clínicos gerais mais associados a essas patologias são tosse, cansaço fácil, dispneia, intolerância ao exercício, síncope, ascite e edema de membros (CRIVELLENTI 2015). O tratamento medicamentoso e nutricional visa reduzir complicações, melhorar a qualidade de vida do paciente e retardar a progressão da doença.

Com o avanço do processo patológico, animais com insuficiência cardíaca congestiva tendem a apresentar anorexia e caquexia. Estas podem ser secundárias à fadiga e dispneia, efeito adverso de medicamentos, alterações na dieta que a deixem menos palatável (redução do sódio e/ou proteína) ou até mesmo por conta do mal-estar geral do paciente. A distensão abdominal que acompanha os quadros de ascite e hepatomegalia, comum na insuficiência cardíaca congestiva, também pode dificultar a alimentação do animal, pois a compressão do estômago pode levar à uma falsa sensação de saciedade (JERICÓ 2015).
A redução da ingestão de energia por inapetência e anorexia, bem como a redução da digestão e absorção de nutrientes pela congestão da mucosa intestinal e edema pancreático somadas ao aumento da utilização energética por taquipneia/taquicardia culminam no quadro de caquexia. A caquexia cardíaca pode ser entendida como a perda de massa magra, e consequentemente de peso corporal, devido à disfunção cardiovascular. A metabolização do tecido muscular afeta vários sistemas, inclusive a função imunológica, e está relacionada há um tempo de sobrevida reduzido.

Manejo nutricional de cães e gatos cardiopata
Além da terapia medicamentosa, o manejo nutricional do paciente cardiopata é componente importante do tratamento porque tende a aumentar a qualidade de vida, tempo de sobrevivência e reduzir complicações visto que, por exemplo, a anorexia é um fator que contribui para a decisão de eutanásia em 68% dos cães com insuficiência cardíaca congestiva (MALLERY 1999). No geral, os ajustes dietéticos dependerão dos sintomas, do estágio da disfunção cardíaca e do resultado de alguns exames laboratoriais.

Além da inclusão de nutrientes específicos, a palatabilidade da dieta, o volume de cada refeição e a frequência com que o alimento será fornecido também devem ser considerados. Alternar entre alimento seco e úmido, aquecer a dieta, adicionar pequena quantidade de palatabilizante, oferecer refeições menores e mais frequentes ao longo do dia são algumas formas de melhorar a aceitação por parte do animal. A fórmula do alimento é outro ponto a ser considerado. A dieta escolhida deve ser completa e balanceada para a espécie do paciente, já que o uso de dietas inadequadas é capaz de gerar deficiências nutricionais significativas, como é o caso de alimentos veganos com níveis de metionina abaixo do recomendado que podem gerar deficiência de taurina (ZAFALON 2020). Sabe-se que a metionina é precursora da taurina, que por sua vez, é um aminoácido importante para a função do miocárdio.

Os principais nutrientes de interesse, além do sódio, no manejo nutricional de cardiopatas são: proteína, taurina, L-carnitina, ácidos graxos, vitamina B, antioxidantes, potássio e magnésio.

Sódio
A restrição de sódio na dieta de cardiopatas é direcionada ao controle de sinais clínicos responsivos a este mineral. Em animais assintomáticos, apesar da restrição de sódio não ter benefícios comprovados, é interessante começar a dialogar com o tutor sobre opções de alimentos preferíveis, oferta de petiscos, administração de medicamentos, controle de peso e escore corporal para que no futuro, se necessário, as modificações nutricionais sejam mais bem aceitas. Quando os sinais clínicos começam a aparecer, geralmente recomenda-se uma restrição moderada do sódio (<0,30% da matéria seca) e conforme a disfunção cardíaca torna-se mais severa, dietas veterinárias formuladas especificamente para pacientes cardiopatas devem ser consideradas (CASE 2011).

Existem algumas contradições sobre os níveis recomendados de sódio, principalmente para gatos, visto que algumas dietas comerciais utilizam o alto teor deste mineral como manejo terapêutico de patologias do sistema urinário, essencialmente as urolitíases. Apesar da alta ingestão de sódio ser conhecidamente deletéria à saúde humana, evidências atuais sugerem que a pressão arterial e o estado hipertensivo em felinos não são tão sensíveis ao sódio dietético como em outras espécies (NGUYEN 2017). Sabe-se também que, no geral, a restrição severa de sódio não traz benefícios porque tende a aumentar a ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona.

Proteína
Como comentado anteriormente, é comum que cães e gatos cardiopatas apresentem anorexia e caquexia cardíaca, logo, o fornecimento de proteína de alta qualidade é importante para minimizar a perda de massa magra e desnutrição que podem acontecer com esses animais e otimizar a produção de taurina. A restrição proteica deve limitar-se aos pacientes com doença renal concomitante em estágio avançado ou azotêmicos, quando a azotemia é resultante da combinação do uso de inibidores da enzima conversora da angiotensina (ECA) e diuréticos e não for resolvida com a redução da dose de furosemida (JERICÓ 2015).

Taurina
A taurina é um aminoácido sulfurado, essencial para gatos, encontrado em altas concentrações no miocárdio, músculo esquelético, sistema nervoso central e plaquetas e é de extrema importância para o funcionamento correto do coração (TENAGLIA 1998; SCHAFFER 2010). A relação entre esse aminoácido e a cardiomiopatia dilatada (CMD) em felinos foi constatada no final dos anos 1980 e até esse período, a CMD era uma das doenças cardíacas mais diagnosticadas em gatos. Ainda hoje é possível encontrar casos de CMD em felinos pela deficiência desse aminoácido, mas a maioria dos casos são uma variante independente de taurina (FASCETTI 2012). Os casos relacionados à deficiência de taurina geralmente são diagnosticados em gatos que recebem uma dieta desbalanceada e de baixa qualidade, muitas vezes caseira ou vegetariana e podem ser revertidos com suplementação.

Em cães, a relação entre taurina e disfunções cardíacas parece ser dependente de uma predisposição racial (Por exemplo, Cocker Spaniel Americano e Golden Retriever) e embora o benefício da suplementação ainda não esteja claro, esta é recomendada em doses de 500 a 1000 mg/kg duas ou três vezes por dia para manter a concentração sérica de taurina ótima (JERICÓ 2015).

L-Carnitina
L-carnitina é uma amina quaternária muito importante no processo de produção de energia no miocárdio. A deficiência de L-carnitina foi relatada em uma família de Boxers (KEENE 1992) e desde então ela vem sendo suplementada em alguns cães com cardiomiopatia dilatada, apesar de sua contribuição ainda não ter sido completamente entendida. A dificuldade em estabelecer o verdadeiro papel da L-carnitina envolve a necessidade de documentar a concentração desta no miocárdio, uma vez que a concentração plasmática dentro da normalidade não eliminaria a possibilidade de haver uma deficiência miocárdica (JERICÓ 2015).

A suplementação deste nutriente apresenta benefícios para o miocárdio e na produção de energia e poucos efeitos colaterais, mas é um suplemento dietético relativamente caro. Algumas dietas comerciais também são enriquecidas com L-carnitina e apesar da dose ideal ainda não ser conhecida, recomenda-se a suplementação com 50 a 100 mg/kg por via oral a cada 8h.

Ácidos graxos
A suplementação de ômega-3 pode ser benéfica para cães com patologias do sistema cardiovascular, visto que cães com insuficiência cardíaca tem menor concentração plasmática de ácido eicosapentaenoico (EPA) e docosahexaenoico (DHA) (FREEMAN 1998). A suplementação com ômega-3 também modula a produção de citocinas, reduz eicosanoides inflamatórios e pode ajudar com a palatabilidade da dieta, aumentando a ingestão de alimento (FREEMAN 1998). No suplemento, é importante que a relação ômega-6:ômega-3 seja alta e embora não haja um consenso sobre a dose ideal, geralmente recomenda-se doses de 40mg/kg de EPA e 25mg/kg de DHA para cães com quadro de anorexia e caquexia cardíaca.

Vitamina B
A deficiência de tiamina (vitamina B1) é uma causa conhecida de cardiomiopatia em humanos, mas a relação entre vitaminas do complexo B e disfunções cardíacas de cães e gatos ainda é pouco estudada. A deficiência de vitamina B em cardiopatas é fortemente influenciada pelo quadro de anorexia e pelo aumento das perdas urinárias de vitaminas hidrossolúveis pelo uso de diuréticos. Apesar das dietas comerciais de cães e gatos possuírem níveis relativamente elevados de vitaminas hidrossolúveis, a suplementação de vitamina B pode ser útil para cardiopatas, principalmente os que fazem uso de grandes doses de diurético e não consomem alimento formulado especialmente para portadores de cardiopatias.

Potássio e Magnésio
Potássio e magnésio são nutrientes relevantes para cardiopatas uma vez que a depleção desses eletrólitos pode causar arritmias, redução da contratilidade miocárdica, fraqueza muscular e até potencializar os efeitos adversos de fármacos utilizados no tratamento de patologias cardíacas (FASCETTI 2012). Algumas causas de hipocalemia e hipomagnesemia envolvem o uso de diuréticos e a ingestão inadequada desses minerais, porém é importante lembrar que a ocorrência de hipercalemia também é muito provável visto que alguns medicamentos, como inibidores da ECA e a espironolactona, são poupadores de potássio e algumas dietas comerciais apresentam níveis de potássio elevado.

Conclusão
Doenças cardíacas são desordens comuns em cães e gatos e o manejo nutricional adequado pode reduzir complicações, aumentar a qualidade de vida, diminuir a progressão da doença e até reduzir doses dos medicamentos. O tratamento desse tipo de disfunção é dependente de inúmeros fatores, inclusive características individuais do paciente, portanto não existe uma única dieta ou protocolo medicamentoso ideal para todos os animais, sendo necessária a avaliação de um médico veterinário capacitado para o sucesso da terapia.

Mariana Gilbert Pescuma
Médica-veterinária graduada pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária da Universidade Estadual Paulista – FCAV/UNESP, Campus de Jaboticabal (SP) e mestranda em zootecnia com ênfase em Nutrição de Cães e Gatos pela mesma instituição.

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