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O papel do alimento como auxiliar no controle da ansiedade dos cães

Os animais de estimação realmente tornaram-se membros da família. À medida que a relação entre as pessoas e seus animais de companhia se torna mais próxima, eles são cada vez mais atraídos para o círculo familiar e estão experimentando as mesmas condições de vida que seus tutores, muitos vivendo em grandes centros urbanos, frequentando diversos locais, em contato com poluição atmosférica, sonora e visual. Estes e outros agentes estressores, além de contribuírem com o aumento da ansiedade e estresse para os humanos, também contribuem com o aumento da ansiedade e estresse para os cães. Muitos cães, especialmente os de pequeno porte, não conseguem lidar bem com estas situações intensas do dia a dia e tem mais dificuldade de se adaptar a mudanças no ambiente como a chegada de um novo bebê, chegada de um novo pet na família, mudança de casa, por exemplo.

A ansiedade pode ser definida como uma resposta à antecipação a um perigo ou incerteza potencial ou imaginária1. As manifestações de medo e ansiedade são fatores associados a muitos problemas comportamentais observados nos cães. Estima-se que 29% dos cães demostram sinais de comportamentos relacionados a ansiedade2. Problemas de comportamento podem afetar negativamente a relação do tutor com seu cão, levando a um menor comprometimento com os cuidados, renúncia ou até eutanásia3,4. Além disso, o estresse associado ao medo e ansiedade afetam o bem-estar, a saúde e a expectativa de vida5.

A responsividade a vários tipos de estresse foi relatada como sendo afetada por drogas exógenas ou possivelmente pela dieta. Drogas psicoativas, incluindo benzodiazepínicos, azapironas, antidepressivos tricíclicos e inibidores seletivos da recaptação da serotonina, são comumente prescritos no tratamento de distúrbios comportamentais, particularmente aqueles associados a medo e ansiedade6,7. Em humanos, como alternativa à estas drogas, utiliza-se um suplemento natural derivado de uma proteína hidrolisada de peixe com efeitos comprovados como semelhante aos do Diazepam. Este composto é produzido a partir de uma espécie de peixe branco da família Gadidae e o processo de produção utiliza a hidrólise enzimática para liberar os peptídeos e aminoácidos responsáveis por suas propriedades terapêuticas. Foi descoberto que o hidrolisado de peixe PC60, obtido do bacalhau e da cavala, tem efeitos semelhantes aos dos benzodiazepínicos no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, atividade simpatoadrenal e níveis de ácido gamaaminobutírico (GABA) no hipocampo e no hipotálamo, com efeitos na redução da ansiedade em humanos e melhora na memória e desempenho de aprendizagem em ratos e humanos8.

Outro estudo utilizou hidrolisado de peixe, similar ao PC60, como suplementação em um alimento industrializado para cães e avaliou a resposta comportamental observacional e níveis de cortisol no sangue de cães expostos a barulhos de trovão. O composto de teste mostrou eficácia na redução da hiperatividade e na redução da resposta do cortisol9.

Um estudo feito com cães que consumiram uma dieta formulada com a suplementação de hidrolisado de peixe durante 6 semanas questionou tutores a classificar as expressões comportamentais de seus cães frente à diferentes situações do dia-a-dia e demonstrou um aumento de 44% no comportamento normal de seus cães diante de situações intensas e de mudança10.

A aplicabilidade deste composto em um alimento especificamente formulado para auxiliar cães ansiosos e com dificuldade de se adaptar às situações intensas do dia-a-dia traz uma alternativa acessível para auxiliar no bem-estar emocional dos cães. Graves problemas comportamentais, cães com necessidade de terapia comportamental ou com sintomas clínicos relacionados ao estresse, como problemas digestivos ou de pele devem ser acompanhados pelo médico-veterinário.

Priscila Rizelo

Coordenadora de Comunicação Científica Royal Canin do Brasil

Referências bibliográficas

  • Royal Canin dog & cat segmentation study (total country: USA, France, Russia, Japan, UK, Japan), 2012.
  • Kirby, Naomi A, Shaleah L Hester, and John E Bauer. 2007. “Dietary Fats and the Skin and Coat of Dogs.” Journal of the American Veterinary Medical Association 230, 2007, p 1641–4
  • Kirby, N A, S L Hester, C A Rees, R A Kennis, D L Zoran, and J E Bauer. 2009. “Skin Surface Lipids and Skin and Hair Coat Condition in Dogs Fed Increased Total Fat Diets Containing Polyunsaturated Fatty Acids.” Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition 93, 2009, p 505–511.
  • Learner AB, Fitzpatrick TB Calkins E. Mammalian tyrosinase: the relationship of copper to enzymatic activiy. J.Biol., 1950, p 793-802.