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Oxigenoterapia hiperbárica na medicina veterinária

Por Mariana Vilela, de Curitiba (PR)

Hospital Veterinário Universitário da UFSM conta com uma câmara hiperbárica HVM-H1 específica para uso veterinário

A oxigenoterapia hiperbárica (HBOT) permite que um paciente respire altas concentrações de oxigênio ao ser colocado em uma câmara específica que amplia a pressão de oxigênio medicinal.

A oxigenoterapia hiperbárica (HBOT) permite que um paciente respire altas concentrações de oxigênio ao ser colocado em uma câmara específica que amplia a pressão de oxigênio medicinal. A HBOT consiste no fornecimento de oxigênio puro a 100%, sob pressão atmosférica acima do nível do mar, habitualmente de duas a três vezes.

Sistematicamente, o oxigênio transportado pelo sangue se eleva em até 20 vezes, atingindo brevemente o tecido afetado. Dessa maneira é ampliada a quantidade de oxigênio no alvéolo, gerando mais moléculas disponíveis na interface alveolar-capilar para difusão no sangue. A HBOT auxilia na redução de processos inflamatórios, estimula a formação de novos vasos sanguíneos e crescimento endotelial, bem como apresenta funções bactericidas e bacteriostáticas. A gama de indicações para esta terapia vêm crescendo anualmente.

E por meio de parceria firmada entre a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a HVM Brasil (Hyperbaric Veterinary Medicine) e a Veterinary Hyperbaric Association (VHA – vhavet.org), desde junho de 2020, o Hospital Veterinário Universitário (HVU/UFSM) conta com uma câmara hiperbárica específica para uso veterinário. Após treinamento e credenciamento dos professores e pós-graduandos realizado pela VHA, o local tornou-se um centro de referência em pesquisa, ensino e extensão em oxigenoterapia hiperbárica (HBOT).

O executivo da HVM Brasil, Jean Robert Malek, destaca que a terapia hiperbárica possui diversos usos em medicina veterinária, entre eles tratamento de lesões e de diferentes doenças, além da preparação pré-cirúrgica dos animais, aumentando a chance de sobrevivência à operação. Jean Malek, acompanhou a instalação da máquina em 2020, ao lado dos professores Daniel Curvello de Mendonça Müller e Maurício Veloso Brun, do Departamento de Clínica de Pequenos Animais, do Centro de Ciências Rurais da UFSM (CCR).

De acordo com Jean, é um método terapêutico que surge com ampla gama de indicações e possibilidades, tornando o local uma referência na região sul do Brasil, absorvendo pacientes de diferentes cidades e estados. “Todos os pacientes são acompanhados por médicos-veterinários e auxiliares capacitados e credenciados no manejo e operação da câmara hiperbárica, garantindo acompanhamento completo até o fim do tratamento. Todos os casos são analisados de modo individual e criteriosamente, o que permite divulgar os resultados alcançados, ascendendo o objetivo da nossa instituição, construir e difundir conhecimento”, ressalta.

Na rotina hospitalar, a HBOT é empregada em diversos casos, sempre acompanhados por indicação médica. “Destacamos o tratamento de lesões teciduais, incluindo feridas causadas por acidentes automobilísticos, feridas contaminadas, feridas isquêmicas, retalhos de pele comprometidos, obtendo resultados positivos em todos os casos. Ademais, tem-se utilizado esse método terapêutico como coadjuvante no preparo de pacientes para procedimentos cirúrgicos, visando atingir parâmetros fisiológicos satisfatórios”, explica Jean.

Na área da pesquisa do centro de terapia hiperbárica da UFSM, diferentes estudos estão sendo realizados, com ênfase na análise de parâmetros hematológicos e hemogasométricos em distintas situações, bem como associação da terapia hiperbárica com bioterapia larval. Pesquisas em andamento envolvendo HBOT abrangem temas como pacientes sépticos, estabilização de animais submetidos a videocirurgias, além do preparo de candidatos ao tratamento com endopróteses. “As pesquisas buscam resultados da ação da HBOT frente as diversas enfermidades que atingem os pets, contribuindo na compreensão do mecanismo de ação dessa terapia frente os tecidos doentes. Os resultados continuarão a iluminar a comunidade veterinária sobre os efeitos da HBOT”, destaca Jean.

PATIENT HVM 3

ALGUMAS INDICAÇÕES DA HBOT

  • Trauma craniano/medular
  • Isquemia cerebral
  • Embolia fibrocartilaginosa
  • Cegueira cortical
  • Tetraparesia
  • Lesão do nervo periférico
  • Lesões associadas à práticas atléticas
  • Hipotensão
  • Tendinite
  • Choque (de diferentes causas)
  • Desmitis
  • Enfarte cardíaco
  • Periostite
  • Anemia aguda
  • Fratura
  • Doença de reperfusão
  • Laminite
  • Intoxicação por monóxido de carbono
  • Miosite
  • Toxicidade por cianeto
  • Lesões por esmagamento
  • Inalação de fumaça
  • Linfangite
  • Hemorragia pulmonar induzida por exercício
  • Pleurite
  • Sinusite
  • Edema pulmonar
  • Feridas
  • Queimaduras térmicas
  • Enxertos comprometidos
  • Envenenamento por acidente ofídico e araneísmo
  • Artrite séptica
  • Septicemia
  • Pancreatite
  • Endotoxemia
  • Blastomicose
  • Úlceras
  • Doença de Lyme

Perguntas e respostas sobre oxigenoterapia hiperbárica na medicina veterinária

Como é aplicada a terapêutica hiperbárica com oxigênio no paciente?
O paciente é colocado em uma câmara de tamanho adequado que possibilita um ambiente hiperbárico com o fluxo de oxigênio em ambiente hermético.

Qual é o objetivo da oxigenoterapia hiperbárica?
O objetivo da oxigenoterapia hiperbárica é aumentar a quantidade de oxigênio entregue ao tecido doente. À medida que aumentamos a concentração de oxigênio no sangue para níveis muito elevados, aumentamos a quantidade de oxigênio que se difunde no tecido. A terapêutica com oxigênio hiperbárico pode ser utilizada isoladamente ou em associação com terapias convencionais (medicina integrativa).

Como funciona o protocolo de tratamento?
O oxigênio é considerado um fármaco e, assim como qualquer outro medicamento, podemos administrá-lo em várias doses, frequência da administração e duração da terapêutica, dependendo da doença que será tratada. Por exemplo, um paciente pode ter a necessidade de receber duas atmosferas de pressão por uma hora cada, por sete a 10 sessões.

Quais os riscos associados a esta terapia?
Se a terapia for devidamente aplicada, os riscos associados à oxigenoterapia hiperbárica são mínimos. Como qualquer outro fármaco, há ocasiões em que podem ocorrer reações mesmo fora do previsto, mas estas são raras. Milhares de pessoas e animais foram tratados com sucesso com esta terapia. A toxicidade do oxigênio e a barotrauma são duas possíveis reações da administração de oxigênio sob pressão que são monitorizadas continuamente durante o tratamento. A incidência destes efeitos é minimizada pela dosagem adequada, frequência e duração da pressão de oxigênio, pressurização e compressão adequada e procedimentos de despressurização.

Existem efeitos secundários da oxigenoterapia hiperbárica?
Os efeitos secundários em animais são raros. Os efeitos secundários estudados em seres humanos são geralmente transitórios e desaparece quando a terapêutica é interrompida.


Algumas observações sobre a HBOT:
1. Hiperoxigenação: Respirar oxigênio a 100% enquanto estiver abaixo de 2-3 atmosferas de pressão entregam 20 vezes mais oxigênio para os tecidos do que se respirar ar de normal a (21%) em condições normais de vida. Isto fornece ajuda imediata para isquemia e comprometimento do tecido, mesmo com fluxo sanguíneo reduzido.

2. Pressão direta: O oxigênio sob pressão diminui o tamanho das bolhas de gás levando a reabsorção. Este é o mecanismo, pois o HBOT trata de embolismos gasosos e intoxicação por nitrogênio nos tecidos, causados por acidentes de mergulho.

3. Ações bactericida e bacteriostática: A hiperoxigenação dos tecidos aumenta a destruição bacteriana e é crítico na cura de infecções resistentes.

4. Vasoconstrição: promove vasoconstrição, especialmente em tecidos feridos. A redução do edema que ocorre é importante no tratamento de queimaduras, lesões por esmagamento e tecidos feridos em geral.
5. Angiogênese: A HBOT promove fluxo sanguíneo colateral. Os vasos sanguíneos colaterais são produzidos por aumento dos fibroblastos que promovem o aumento da produção de colágeno. Portanto, ocorre neovascularização nos tecidos isquêmico e feridos. Estes novos vasos sanguíneos colaterais são funcionais, em oposição aos vasos sanguíneos lesionados no tecido hipóxico ou tecido isquêmico.

6. Estimula a enzima superóxido dismutase (SOD): A superóxido dismutase é uma das principais enzimas com ação antioxidante antioxidantes e quelante de radicais livres. HBOT auxilia o tecido comprometido e ferido afetado pelos produtos de inflamação e pelos radicais livres.

7. Sinergia com os antibióticos: A HBOT providencia ação sinérgica com os seguintes antibióticos: fluoroquinolonas, aminoglicosídeos e anfotericina B. Estes antibióticos utilizam oxigênio para transporte através das células membrana.

8. Diminuição do ácido láctico: A HBOT diminui a acumulação de lactato no tecido isquêmico, o que auxilia muito na cura.

9. Aumento da destruição de anaeróbios: A HBOT é muito eficaz contra bactérias anaeróbias. Isso prospera em tecido sem oxigênio suficiente. A HBOT facilita o sistema peroxidase dependente de oxigênio, pois os leucócitos matam bactérias (Gill e Bell ’97)

10. Morte leucocitária oxidativa. Em ambientes anaeróbicos (com oxigênio limitado), a morte de certos leucócitos é significativamente reduzida pela HBOT. Fornecendo suplementos oxigénio, o HBOT amplia a capacidade destrutiva de leucócitos, permitindo assim que mais bactérias sejam destruídas (R.M LEACH 1998).

11. Diminuição da inflamação: A HBOT diminui a inflamação por vários mecanismos. Citocinas e outros produtos químicos inflamatórios, incluindo ácido láctico, são eliminados com a terapia. O estresse oxidativo os a proteína C reativa sofrem redução com a HBOT. A HBOT estimula os antioxidantes internos no processo inflamatório.

12. Aumenta as células tronco: Em resposta ao HBOT, as células tronco se deslocam da medula óssea para locais com inflamação oito vezes mais ao considerar os níveis normais.

Relatos de casos: Pacientes atendidos no centro de pesquisa HVM/UFSM.

Paciente canino atropelado (HVU 111106)

Paciente canino atropelado com lesão extensa em membro torácico direito. Inicialmente os tutores não conseguiam levar o paciente até o hospital veterinário, devido a logística associada à distância. Então, preconizou-se curativos diários com açúcar.

Após veterinário responsável pelo primeiro atendimento entrar em contato com a equipe responsável pela HBOT no HVU/UFSM, optou-se por realizar sessões até resolução da ferida. Foram realizadas 10 sessões, a 100% de oxigênio com 22PSI durante 60 minutos, em dias alternados. Na última avaliação, a paciente apresentava excelente cicatrização com a oclusão da ferida quase que completa.

HBOT como coadjuvante no tratamento de neoplasma extenso (HVU110578)

Paciente encaminhado para cirurgia de ressecção de nódulo sugestivo de mastocitoma, com evolução há mais de um ano. Foi realizada a exérese total, com margens de 3cm dos quatro pontos equidistantes da neoformação, bem como um plano adicional de profundidade. Para reconstrução do defeito criado, foi utilizado retalho de padrão axial da artéria ilíaca circunflexa profunda.

Após análise histopatológica, o nódulo foi caracterizado como mastocitoma grau II (Patnaik), alto grau (Kiupel). Após 24 horas pós-operatórias, foram instituídas três sessões de oxigenoterapia hiperbárica (HBOT).

As sessões duraram 60 minutos (15 minutos de pressurização, 15 minutos de despressurização), com oxigênio a 100% a 22PSI (2,5 ATA), uma vez ao dia, por três dias consecutivos. Durante as sessões o paciente permaneceu estável, não apresentado intercorrências. Após a HBOT, o retrato apresentou boa evolução, sem pontos de necrose e deiscência de pontos.