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CAPA

Um veterinário apaixonado pela cardiologia

Por Mariana Vilela, de Curitiba (PR)

Entrevista com o médico-veterinário Ronaldo Jun Yamato, que atua na área da cardiologia veterinária como clínico e docente

CAPA A

A conversa hoje é com o médico-veterinário Ronaldo Jun Yamato, que atua na área da cardiologia. Ronaldo é graduado em medicina veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/USP – 1996), mestrado e doutorado em Clínica Veterinária pela mesma instituição no departamento de Clínica Mé-
dica. É docente e coordenador do curso de pós-graduação (Lato Sensu) em Cardiologia Veterinária da Associação Nacional de Clínicos Veterinários em Pequenos Animais do estado de São Paulo (ANCLI-VEPA-SP). Tem experiência na área de Medicina Veterinária, com ênfase em Clínica Médica de Pe-quenos Animais, atuando principalmente nos seguintes temas: cardiologia, ecocardiografia e eletrocardiografia. Sócio da Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária (SBCV) e sócio-proprietário do Instituto NAYA de Cardiologia Veterinária.
Confira a seguir entrevista completa:

Revista Vet&Share: Por que escolheu a medicina veterinária como profissão?

Ronaldo Jun Yamato: É uma paixão que vem desde criança, eu sempre gostei de lidar com animais independente do porte. Como para muitas pessoas o primeiro contato foi com cães e gatos. Com o passar dos anos isso foi ficando cada vez mais forte até quando eu tive a oportunidade de ter a primeira cadelinha quando era criança. Quando a levávamos ao veterinário, o trabalho deles me chamava muita atenção. Eu acabei escolhendo por uma questão de afinidade mesmo. Não tenho veterinários na família, então não foi influência nesse sentido.

V&S: Sua intenção sempre foi seguir na área pet?
RY: Nos primeiros anos da faculdade, por não ter oportunidades de estágio em clínica veterinárias para acompanhar a área pet, eu e alguns colegas tínhamos a intenção de seguir nas áreas de animais silvestres ou equinos. Eram áreas que nos aceitavam para estágio, para fazer a parte de enfermagem e de manejo. Áreas que nos atraiam pela oferta de oportunidades.

Mas a área pet sempre foi uma área que me atraiu por estar muito ligada a medicina, poder diagnosticar, tratar um paciente e proporcionar um bem-estar a esse animal, assim como o ambiente hospitalar tam-
bém, a parte do atendimento clínico, dos exames. É algo que me atraia muito. Esse universo todo é algo que sempre gostei. A partir do momento que começamos a ter o contato na faculdade com essa parte mais profissionalizante, por volta do terceiro ano da faculdade, eu optei por essa área.

V&S: Na sua opinião, quais os desafios de um veterinário hoje de maneira geral?
RY: Acredito que o maior desafio é não desistir do seu objetivo. Hoje temos muitas faculdades no Brasil muitas escolas de veterinária, se não me engano é o país com o maior número de faculdades de medicina veterinária no mundo. Então o mercado de trabalho acaba tendo uma disponibilidade de profissionais muito grande. Dessa forma, o profissional dessa área precisa ter muita força de vontade, muita resiliência, pois é raro um recém-formado se inserir no mercado de trabalho e atingir de imediato suas expectativas quanto a profissão. É uma profissão que demanda muito estudo, muita batalha e é preciso se diferenciar de alguma forma. Por isso a persistência nesse objetivo é fundamental. Num primeiro momento pode parecer que as oportunidades são difíceis, mas elas existem e estão disponíveis. O que é preciso fazer é persistir e para conseguir atingir o seu objetivo.

V&S: E quando decidiu se especializar em cardiologia?
RY: A cardiologia entrou na minha vida profissional no quarto ano da faculdade quando a professora doutora Maria Helena Matiko Akao Larsson, do departamento de clínica médica Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, que foi minha orientadora na iniciação cientifica no mestrado e no doutorado, me convidou para fazer um projeto de iniciação cientifica relacio-nado a nutrição em cães cardiopatas. Desde então, a cardiologia é presente em minha vida e nunca mais saiu. Aproveito a oportunidade de agradecer publicamente a professora Maria Helena pela oportunidade que ela me deu naquela época, e que graças a essa oportunidade e a todo o conhecimento que ela me passou na época da graduação e pós-graduação, eu consigo atuar na cardiologia de cães e gatos até hoje. Fica registrado os meus sinceros agradecimentos a professora.

V&S: O que há de novo na área de cardiologia veterinária?
RY: A cardiologia veterinária, mais especificamente na área de cães e gatos, é uma das que mais cresceu em termos de conhecimento científico, de pesquisas relacionadas a área, a meios diagnósticos, exames complementares, tanto de imagem quanto laboratorial. Existe uma evolução muito grande no tratamento desses pacientes. É uma das especialidades que mais evoluiu e cresceu na medicina veterinária. Podemos citar várias novidades em relação a tratamentos, existem medicamentos que foram estudados e comprovados a sua eficácia no tratamento da insuficiência cardíaca congestiva que, apesar de não proporcionar a cura, aumentam muito a qualidade de vida e a sobrevida desses pacientes. Um deles é o pimobendan, que já faz alguns anos que entrou para o arsenal terapêutico do cardiopata, mas é um exemplo que foi o divisor de águas. Conseguimos ver uma melhora significativa no tratamento dos cardiopatas após a inserção desse medicamento no mercado. Além disso, há muitos estudos com outros medicamentos em andamento.

Já a cura definitiva de algumas doenças acaba acontecendo por meio de cirurgia cardíacas ou cirurgias minimamente invasivas. O intervencionismo cardíaco também teve uma evolução muito grande aqui no Brasil. Algumas doenças congênitas são curadas por meio dessas técnicas, por outro lado, outras têm apenas um efeito paliativo, porém aumentam significativamente a qualidade de vida e sobrevida desses pacientes.

Então eu diria que na parte terapêutica, tanto os medicamento quanto os procedimentos cirúrgicos, o Brasil de uns cinco ou seis anos para cá, apresentou uma evolução muito grande. Hoje temos recursos e possibilidades que antes eram só encontrados em países como Estados Unidos, Inglaterra, Itália.

V&S: Para aqueles que querem seguir na especialidade o que você recomenda?
RY: A primeira recomendação é muito estudo. Como dizia meu saudosíssimo avô materno: Conhecimento é algo que ninguém vai tirar de você! Então a primeira coisa que você deve fazer quando quer se especializar em algo, é estudar. O conhecimento é fundamental. Segunda dica é entender que antes de estudar uma especialidade é preciso estudar o geral. Todo cardiólogo precisa ter uma base da clínica como um todo e depois partir para uma especialização. Hoje há muitas escolas que oferecem programas de residência e estágios, onde é possível adquirir esse conhecimento geral. Depois partir para a especialidade por meio de estágios e de cursos de pós-graduação. Hoje temos opções de boa qualidade, com coordenadores e professores extremamente capacitados e experientes na especialidade. Ao escolher um curso de especialização é muito importante ver quem está na coordenação e a experiência desses profissionais. A terceira dica é vivenciar o máximo que puder antes de começar a praticá-la. Um exemplo, o exame ecocardiográfico que hoje faz parte da cardiologia clínica é um exame em que a curva de aprendizado é muito longa, em torno de um ano a um ano e meio, e requer muito treino.

V&S: Como avalia o aluno de medicina veterinária hoje? Quais os desafios com essa geração?
RY: Também sou professor e é uma atividade que sempre quis fazer e outra paixão. O aluno que está cursando uma graduação, seja ela medicina veterinária ou qualquer outro curso, ele precisa ter persistência, pois com perseverança é uma questão de tempo para esse aluno atingir o sucesso na área que ele escolheu.

Quanto aos desafios como professor, estamos em um momento em que as informações chegam muito rápido a qualquer pessoa, de qualquer idade.É uma geração que por ter essas informações de for-ma muito rápida nas mãos, quer resultados rápidos também. Porém, para ter sucesso na nossa profissão é preciso antes ter paciência, pois o sucesso é o resultado do seu trabalho. Um dos principais desafios é fazer com que essa geração entenda que tudo é uma questão de tempo para alcançar os resultados desejados. Por conta dessa pressa em querer os resultados muito rápido, é uma geração que não sabe lidar com a negativa e com as frustrações.

V&S: Como foi esse período de pandemia para você?
RY: Assim como para o mundo todo, foi um período difícil e de muitas perdas. Pessoas que estavam ao seu lado de uma hora para outra se foram. Isso é muito difícil. Psicologicamente não foi fácil para todos nós.
Mas por outro lado, foi um período de desafios e aprendizados.
Aprendemos a dar valor a muitas coisas e até coisas que nem lembrávamos que existiam, e diante disto, não poderíamos ficar parados. Foi um período de renovação, tivemos que nos reinventar em muitos aspectos, como professor, como formador de opinião, como pessoas e até a forma de se relacionar. Muitas atividades tiveram que ser continuadas de e uma forma remota e o contato em sala de aula se perdeu, não podíamos mais dar aulas e discutir casos clínicos da forma que queríamos.

Por um lado, foi bom, pois aprendemos a dar aulas de um jeito diferente, de forma virtual. Por outro lado, vimos o quanto o contato humano também é muito importante. Não basta somente você ensinar ou informar o seu aluno sobre temas técnico e científicos, você precisa transmitir valores e conceitos positivos com ser humano.

Apesar de tudo foi um período que conseguimos montar outros negócios e inauguramos um centro de cardiologia veterinária. Já estávamos planejados antes da pandemia ocorrer e mesmo com todas as dificul-
dades, alcançamos o nosso objetivo.

V&S: O que esperar da medicina veterinária de animais de companhia para o futuro?
RY: O futuro é muito promissor. É uma das profissões que teve o privilégio de trabalhar na pandemia. O mercado pet cresceu exponencialmente até mesmo durante a pandemia. Os números do mercado são muito promissores e crescem, lógico que durante a pandemia cresceu menos, mas cresceu.

É um mercado que está ficando mais exigente e, com isso, há um aumento nas especializações também. Para se ter uma ideia, na cardiologia veterinária, hoje se faz investimentos em equipamentos de ecocardiografia em torno de 150 a 200 mil Reais, para o diagnóstico de doenças cardíacas.

O cão e o gato é um membro da família e hoje há muitos casais com pets e sem filhos. Em gerações passadas o pet vivia fora de casa e agora ele vive den-tro. Com isso o mercado ficou mais exigente em todos os aspectos.
Então, para aqueles que decidem seguir na área pet, é um mercado que está evoluindo e irá crescer cada vez mais. Eu costumo dizer para os meus alunos que escolhemos muito bem a profissão e, por isso, somos previlegiados, pois é uma profissão que mesmo nas crises, continua crescendo de forma significativa.

V&S: Que mensagem final gostaria de deixar?
RY: Primeiro eu gostaria de agradecer a oportunidade para falar sobre esse assunto, as perspectivas, e um pouco da nossa história.

Também gostaria de aproveitar e ressaltar que a cardiologia veterinária em breve será reconhecida oficialmente como especialidade. Atualmente não podemos nos intitular Cardiologista Veterinário, os veterinários que estudam a área são chamados de cardiólogos. A Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária (SBCV) será habilitada e será a responsável por avaliar os veterinários que desejam adquirir o título de especialista em cardiologia ou Cardiologista Veterinário.

Aos estudantes, gostaria de ressaltar que não desistam de seus objetivos, dos seus sonhos e tenham paciência para alcançar os resultados, pois não é do dia para a noite que o sucesso chega. Além disso, é preciso ter a consciência de que a busca pelo conhecimento na nossa vida pessoal e profissional é eterna. A cardiologia, por exemplo, por ser uma área que está evoluindo muito, a todo momento tem uma novidade. Se você não se atualizar, isso refletirá de uma maneira negativa em sua carreira.
Essa perseverança e a capacidade que temos de ir atrás dos nossos objetivos é algo que temos que preservar sempre, e não deixar o desânimo atrapalhar a nossa jornada em atingir os nossos objetivos. Todo ser humano tem seus altos e baixos, Há dias que da vontade de jogar tudo para o alto e desistir. É comum em nossa profissão ouvir casos de pessoas com síndrome de burnout, que é o esgotamento mental, levando a muitos veterinários a pensar que escolheram a profissão errada, e na verdade, o que estes profissionais precisam é “um tempo” ou belas férias, para restabelecer as forças e continuar.

É normal desanimar e pensar em desistir, mas não é normal desistir dos seus objetivos. Com perseverança e foco, os resultados positivos acontecem um dia e para todo mundo. E sempre que alcançarmos o nosso objetivo, já devemos ter em vista o próximo, nunca devemos parar! Essa busca deve ser constante. É importante lembrar também que errar faz parte do aprendizado, nos faz crescer. O que não podemos fazer é insistir nos mesmos erros.